Vento Norte Paragliders

09.11.2015 | Céu

Uma vez provado o voo no homem, ele vagará pela terra olhando para o céu, pois descobriu o por quê os pássaros cantam. 

Leonardo da Vinci

... Por sobre mim e os meus pequenos problemas lá estava o céu.
 
Diminuí os passos sobre a areia e, por fim, parei e olhei para o espaço.
 
De além-horizonte norte a além-horizonte sul, de além-terra a além-mar, reinava calmo e sereno, o céu. E reparei em algo que nunca observara antes.
 
Que o céu está sempre em movimento, mas nunca some.
 
Que acontece o que acontecer, o céu está sempre conosco.
 
Que o céu não pode ser afetado. Meus problemas para o céu, não existiam, nunca tinha existido, nunca existiriam.
 
Que o céu não interpreta mal.  Que o céu não julga.
 
Que o céu, muito simplesmente, existe.
 
Existe, quer desejamos aceitar essa fato ou enterrar-nos debaixo de mil quilômetros de terra ou mais fundo ainda, sob o teto impenetrável da rotina.
 
Aconteceu um ano mais tarde, eu estar por qualquer motivo em Nova York, com tudo correndo mal, com apenas vinte e seis cents no bolso, com uma fome louca e com vontade de estar muito longe daquelas ruas de prisão de Manhattan, com suas janelas gradeadas e suas portas trancadas a sete chaves.
 
Mas aconteceu eu olhar para cima, coisa que ninguém faz em Manhattan, e de novo, como no ano passado, junto ao mar - só que agora por sobre os canyons de Madison Avenue - lá estava o céu. Sereno. Igual. Cálido e acolhedor como um lar.
 
Que é que você diz a isso? pensei. Por mais enrolada, complicada ou mal-sucedida que seja a vida de um piloto, ele sempre tem, à sua espera, um lar.
 
Sempre o espera a alegria de voltar a voar, de olhar para as nuvens e gritar: Voltei !
 
- Ora, desça das nuvens, bote os pés no chão! - dizem as pessoas.
 
Mas, em ocasiões tão diversas quanto naquela praia deserta ou numa rua super movimentada de Manhattan, eu fui transportado do mais negro desespero para a liberdade. Da irritação, da raiva e do medo para a constatação:
 
- Ora o que me importa? Eu sou feliz! Só para olhar para o céu. 
 
Esse tipo de coisa talvez aconteça porque os pilotos, digam o que disserem, só se sentem felizes quando estão em casa. E só se sentem em casa quando, de uma maneira ou outra, podem tocar o céu. 
 

Richard Bach

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