Vento Norte Paragliders

17.10.2017 | Epopéia em Quixadá I

E o nordeste brasileiro tem calor na pele, no coração, na literatura e nos ares.

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Cultura Nordestina
 
Resgatamos uma poesia de cordel escrita pelo estimado piloto e amigo Arthur Lewis - Tuzim, que conta em uma linguagem de repente e única, as aventuras de alguns voadores, que ano após ano buscam a bordo de suas especiais asas as grandes distâncias prometidas pelo sertão brasileiro.
 
 
PARTE I
Arthurzinho
 
karos amigos piloto
andei sumido da lista
mas volto comendo pista
pra uma história conta
de uns causo acontecido
no sertão do ceará
 
o chefe foi chico santos
ke a trip organizô
kom ajuda do almeida
o resgate* sempre chegô
de nosso amigo landinho
ke muito nos ajudô
 
pra kem num conhece o lugar
preste atenção vuadô
kixada é terra antiga
foi casa de dinossauro
como o velocirraptor
hoje só resta caatinga
e um calor abrasador
 
a decolage é caxxca grossa
uma ventaca de matar
ja sai andanu pra traz
si tu num acelerar
u cabra tem ki ser bravo
e um bom controlador
pra segurar seu velame
na bombacera do rotor
 
mas no céu é otra coisa
é bunitu pra daná
a base a 2 barão
ku céu cheio di pompom
é moleza intubá
 
agora eu falu dus cabra
ki foi comigo pra lá
num era só gavião
pois também foi uns preá*
tinha o andré fleury "virgulino"
ke é veloz e bom da vista
andô  227, hoje é nosso recordista
foi também o andré modelo
mas chegô com uma mandinga
i nu decorrer da refrega
arborizô na caatinga
e perdeu mais uma prega
 
lá também tava o sivuka
piloto bom e apurado 
mas correu risco de vida
pois pur lá andava armado
uns cabra caçando viado
 
foi também o frank brau*
ke é um cara legal 
e é nosso campeão
mas desde o tempo da asa
ke só anda de vagão
o nosso amigo "fepasa"
 
vô fikando por aki
mantedoni a plagiar
no ceará o voo é forte
onde preá sai gavião
e gavião sai carcará
 
PARTE II
Arthurzinho
 
oia eu aki novamente
prá mais um pouco contá
das koisa ke pude vê 
lá nas terras de valente
o sertão do ceará
 
agora eu falo pro ceis
da magia do lugá
e só em pensá na ixtória
fico com ka todo arrupiado
di lembra di kixadá
 
i pra cumeçá u repente
vô fala di um companheiro
ki fez seu ninho nas pedra
di onde avua uns parapente
ta amigo da galera
i ja paro ku seus revides
eu falo é com respeito
do bom gavião Euclides*
 
u bixo tem bico grande
tem di peito uns dois parmos
um par de garra afiada
i o olhar bem penetrante
mas tem um voar suave
pois nasceu com uma sina
ele so come bixo vivo
forte ave de rapina
 
PARTE III
Arthurzinho
 
karos amigos da lista
já tô aqui novamente
pra contá umas hisxtória
tudo em forma de repente
 
sei ki essa forma de exckrita
a todos num pode agradar
mas peço a voceis paciência
ku a minha forma de contá
us causo acunticido
pras banda de kixada
 
sertão é terra de bravo
bota sempre o home a prova
i é sobre esses home
ki vô leva minha trova
pra cumeça por um nome
ke eu muito admiro
tô falanu pra voceis
do valente ranimiro*
 
pur lá tava o cabra faceiro
patrocínio: otto bock
dando aula de destreza
o nosso rani-ciclope
mostrô prá nois como faiz
pois nu manuzeio dos pano
dedilhou como um piano
deixou todu mundo pra traiz
 
o cara é aperriado
com sua perna di metal
si tu katuka u bixo
da inté salto mortal
pra ele não tem muito chão
nem luga dificiu di andá
pra tentá as alegria
joga duro nu vuuá
 
novamente rufo u bumbo
fazendu esta homenagem
ranimiro companheiro
tu és prova de coragem
 
me adispeço dus amigo
ki paro pra decifrá
nessa excrista inventada
as aventuras de kixadá
e pra respondê pru preá
du vento eu falo agora
parecia uns 50
mas era só 14 p/hora
 
PARTE IV
Arthurzinho
 
karu amigo "milholo"
agora presta atenção
pois vô agora explicá
o mistério du ventão
de saída em kixadá
 
u tufão maiz ke 50
isso é fatu sabidu
si tu num fô macho nem tenta
poiz si vacilá tá fudidu
a historia ki rolo
foi kum nosso paladino
tô falanu im reverência
a u campeão virgulino
 
u cabra é dextemido
pois foi kriado amarrado
hoje u home dá aula
avuano nu cerrado
pur lá us vento são forte
num é fácil pra ninguém
maiz pra decolá nu tufão
igual virgulino não tem
 
chegando na rampa cedinho
tava lá o furacão
intão nois chamava u andre*
modi fazê as medição
e ele fazia trankuilo
kom muita dedicação
lambia a ponta du dedo
e virava pru tufão
 
depois de fazê medição
kum tanta tekinologia
falava ku trankuilidade
tá frakinho kem diria
ekipava e me chamava
ô tuzim vamo agora
poiz u ventu tá moleza
somente 14 por hora
 
fleury* é piloto véiaco
no parapente é dus bão
só dekola na ventaka
u cabra num tem medu não
 
prextô atenção o preá
explicá foi meu intento
agora tu ta sabeno
du mixtério dus vento
nus voo du ceará
 
A RIMA DA SAUDADE
Arthurzinho
 
... karos amigos da lixta
extou novamente a rimar
poix tá partinu u trem
lá pras banda du ceará
extou con os zoiu vremeio
a noite dizandu a chorá
aiii ki sardade ki dá
dus voo im kixadá...
 
...a barca partiu completa
virgulino a liderá
chuchuko afiô as pexera
o purtuga encheu o bôrná
us homi tão preparadu
pra us gringo arrepiá...
 
nessa barca também partiu
mais um bando de preá
coitadu desses bichinho
kuandu na decolage chegá
coração vai dispará
i as perna bambiá
i si num tuma cuidado
piriga uns si cagá
 
...pois lá pur akelas banda
é ondi mora us tufão
virgulino foi contratado
pra fazê as medição
e us instrumento ki usa
é us pêlo das costa da mão
 
...onti eu deitado na cama
pra iscapa da volição
deu na tv a nutícia
pra apertá meu coração
inté u açude du cedro
já secô i virô torrão
fico só imaginanu
u tamanhu da bombação
 
... aiiii meu padin padi cicu
mi ajude a iskecê
das serra i das baxada
onde fui feliz a valê
das inrroxcada danada
dakeles bunda lelê
 
essa é uma rima sofrida
ki eu canto por aki
lamentanu i remuenu
pra lá num pudi partí
mais si meu deus mi ajudá
antis dus meu dia acabá
ceará num dexu di í...
 
 
Glossário:
 
Preá: Piloto novo, recém saído de escola.
 
Euclides: Em Quixadá até os urubus têm nome - Euclides tem uma casa sobre a pedra do Santuário, situada à direita da rampa de vôo. Enquanto os pilotos se preparam para mais um dia de competição, ele se aproxima da rampa para avaliar seus companheiros. Chega inclusive a pousar sobre as asas e equipamentos. O urubu já é conhecido no lugar e conseguiu ganhar a confiança dos pilotos. O nome foi empregado pelos pilotos e chegou ao conhecimento dos competidores. O bicho é uma espécie de guia de voo. É a natureza ajudando o homem a voar.
 
Resgate: Pessoa que é responsável por buscar o piloto, seja lá onde ele pousar. O resgate utiliza rádio, GPS e uma boa dose de paciência para encontrar o voador.
 
Ranimiro: Em um acidente com um fio de alta tensão perdeu uma das pernas, e isso não foi um limitador para suas aventuras que renderam reportagens de esporte de ação, aventura e comportamento no Globo Esporte, Fantástico, SporTV, ESPN, SBT, Adriana Galisteu no É Show. Continua voando, viajando, palestrando sobre motivação e muito mais que pode ser conferido em seu site www.ranimiro.com.br.
 
André Fleury: Recordista nato. Dentre seus feitos vale destacar os oito recordes mundiais de distância, primeiro piloto brasileiro a estabelecer um recorde mundial homologado pela FAI. É um nome histórico do parapente internacional.
 
Sobre o autor do repente: Arthur Lewis - Arthurzinho - Tuzin
Auto-didata. Começou a se "jogar" das montanhas em 1987 utilizando um pára-quedas de salto. Foram 3 anos de trabalho duro para seu anjo da guarda. Qualquer coisa com mais de 50 metros chamava-lhe desesperadamente. Os pousos eram em locais inusitados. Até ônibus serviu para tanto. Seu anjo da guarda lhe deu um ultimato em dezembro de 1990, quando voou de um prédio de 54 andares no centro de São Paulo. 
Em 1996 sofreu um grave acidente no voo e perdeu todos os movimentos. Passou por uma fase muito difícil de recuperação. Oito meses após o acidente estava voltando a voar. As lágrimas correram-lhe o rosto após sua primeira estampada. 
Em 1992 começou a trabalhar com jóias em prata com motivos de voo livre, hoje já são diversos modelos de variados esportes e vem trilhando um brilhante caminho.
Algumas de suas jóias podem ser encontradas em nossa loja Vento Norte, com preços que variam de R$ 50,00 até R$ 120,00, conforme o modelo.
Arthur também foi o idealizador e co-fundador da Associação Brasileira de Parapente.
 

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