Vento Norte Paragliders

03.01.2015 | Um Remédio Amargo

Publicada desde 1988, a revista Cross Country é distribuída em 75 países tanto da versão impressa quanto digital. - See more at: http://www.xcmag.com/portuguese/#sthash.ozaNr3qD.dpufConsiderações iniciais:

Hoje decidimos pegar "pesado"! Escolhemos o texto de Hugh Miller - Um Remédio Amargo - publicado em outubro de 2002 na Cross Country Magazine.

A revista Cross Country Magazine foi criada em 1988 por Sherry Thevenot, ou seja são quase 27 anos compartilhando conteúdo de qualidade para 75 países (inclusive o Brasil!), é a revista de maior prestígio e conceito internacional no mundo do voo livre. Entre os editores, estão os pilotos Hugh Miller, Ian Clackmore e Bob Drury!

Uma das mais recentes novidades dessa revista consagrada é a Cross Country Magazine em Português, já disponível para compra atraves do site! http://www.xcmag.com/portuguese/

UM REMÉDIO AMARGO - Hugh Miller 

Tradução Silvio Ambrosini (Sivuca)

Um amigo meu que não voa me fez uma pergunta simples um dia destes: " Por que você voa?"

Lá estava eu novamente engasgando uma resposta enquanto as desculpas usuais apareciam como o visual ao meu redor - a paisagem, o ar fresco, a brisa marítima, o momento, etc, etc. Conforme eu me enrolava para responder, vinham à minha mente coisas como o fato concreto que existem tantas coisas em nossas vidas que são tão especiais quanto difíceis de serem explicadas. Você simplesmente fica resmungando tentando definir seus sentimentos e as palavras não vêm. É tudo realmente inexplicável. Ocasionalmente um grande coração é tomado por momentos de inspiração e derrama sobre o papel um texto no estilo "Porque eu voo". Certamente, muitos fotógrafos conseguem captar alguma coisa do misticismo que envolve o voo livre, mas papel e tinta, apesar dos esforços, ainda dão respostas à estas perguntas que se assemalham a ovo difícil de quebrar.

Também é difícil para mim explicar alguns aspectos dos meus últimos dez anos vivendo e respirando voo livre. Talvez o mais difícil de tudo seja justificar às pessoas porque eu continuo voando após ver tantos acidentes. Apesar do êxtase que voar me proporciona, detesto aquelas não tão infrequentes visitas a amigos em hospitais, enrolados em gaze, rodeados de tubos e instrumentos, que acabaram de ser arrancados das decolagagens gramadas onde normalmente a gente se encontra. A natureza humana me faz esquecer estas coisas rapidamente ao mesmo tempo que cada acidente vem como uma surpresa total, e me lembra da corda bamba que nos equilibramos a cada decolagem. O voo é tudo ou nada. É prazer e dor, amargo e doce. Um pílula gorducha e cheia de cantos vivos que continuamos a engolir porque sabemos que é bom demais para desistir.

Em setembro de 1997e u pousei no poeirento gol turco no último dia do primeiro Word Air Games. Eu havia vencido e deveria me sentir felicíssimo, mas eu havia visto um grande amigo, Peter Brinkeby, espiralando com seu parapente engravatado até atingir o chão próximo de mim. Enquanto as crianças turcas corriam excitadas para ver o helicóptero pousar, eu me horrorizava com culpa e nojo. Culpa por ter vencido e nojo daquele clima de competição que habia colocado Peter na situação que ele estava agora: jogado no chão com seu corpo quebrado, numa piscina feita de seu próprio sangue e ainda por cima longe de casa. Era um momento dolorido. No ônibus a equipe, voltando para o hotel, escondi meu rosto contra a janela e chorei.

Como todos sabem, tanto por ver seu nome no topo das listas de resultados das competições ou por ter encontrando-o em pessoa, Peter teve uma recuperação fantástica. Um ano mais ou menos depois do acidente, estávamos no meu apartamento em Bar-sur-Lop, na França, no mesmo local onde eu iniciara-me como editor da revista Cross Country enquanto ele estava trabalhando como test-pilot da Airwave, conversando sobre a experiência pela qual ele tinha passado. Fiz a ele aquela pergunta óbvia - durante os longos meses de reabilitação (ele precisou  aprender a andar novamente e ainda agora ele perdeu bastante mobilidade e nunca será capaz de correr)... se ele havia pensado em parar de voar?

NUNCA, foi a resposta direta de Peter, que seguiu com uma simples e corantante explicação..."mas se eu tivesse apenas considerado a hipótese de pendurar as chuteiras teria competido todos estes anos pelo motivo errado, apenas fingindo que voar não morde. Eu sei que o voo pode me matar e acho que você deveria saber também. Meu acidente foi uma troca justa por todo o prazer que o voo me proporcinou a vida toda.

Peter me fez parecer estúpido por ter feito tal pergunta e fez minha própria atitude com relação ao voo parecer algo claramente ingênuo.

Náo tenho certeza sobre quantos de nos são realmente astutos. Sem dúvida nossa crença nos resultados de homologação e estatísticas de auto-recuperação em situações de colapsos e estol (medidos em segundos pelos eficientes alemães) é muito menos brutal que qualquer encosta que você pode se arrebentar depois de ter tido o incrível azar de ter tido seu velame desmontado por uma turbulência qualquer. Eu realemtne tenho sido apenas sortudo o suficiente para isto nunca tenha acontecido comigo.

Não existe realmente uma grande mensagem exceto que voar, particularmente no limite de nossa capacidade técnica, envolve-nos em experimentar a totalidade da vida atirada numa TV de alta definição com transmissão de sensações, mas antes que apertemos o botão de ligar e tanto faz o quanto estivermos na sintonia correta, teremos que aceitar a realidade do risco e possivelmente a um custo bem alto.

Esta edição da revista Cross Country é uma celebração ao voo em toda a sua glória, com textos incriveis dos "recentes voos" em Zapata, mas como a morte é apenas uma parte da vida, dor e tristeza também podem fazer parte desta incrível experiência em voar. Precisamos aceitar isto. Se escolhermos varrer esta sujeira para baixo do tapete, estaremos ignorando o perigo inerente do ato de voar e estaremos enganando a nos mesmos em um falso senso de segurança.

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QUEM FALHA PRIMEIRO É A MENTE NÃO O CORPO

 

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